Mudança de vida: estudante cigana é a primeira pessoa da família a ingressar no IFPB

07/01/2026 16:29:03


Ela mora na Comunidade Cigana Calon, em Sousa (PB), no Sertão paraibano, e está no último período do curso de Educação Física 


Nascida na maior comunidade cigana da América Latina, localizada no município de Sousa (PB), Natalia Figueiredo, de 25 anos, é a primeira pessoa da sua família a ter acesso ao ensino superior público. Ela é estudante do Instituto Federal da Paraíba (IFPB) Campus Sousa, instituição apoiada pela Fundação de Educação, Tecnologia e Cultura da Paraíba (Funetec), e deve concluir a graduação ainda este ano.  

“Minha experiência com o IFPB é de muito tempo. Foi aos seis anos de idade que comecei a alfabetização, quando lá ainda era a Escola Agrotécnica; foi lá que comecei a alfabetização. O Instituto sempre representou para mim o acolhimento, um local em que eu me sinto em casa desde sempre”, disse Natália.

Foi em 2022 que a mudança de vida começou de fato na vida de Natália. A primogênita de Maria Figueiredo estudou na Escola Estadual Celso Mariz e foi aprovada no Enem para o curso de Educação Física do IFPB. Chamada de “primeira geração”, Natalia mora em um dos dois ranchos da comunidade cigana Calon, espaço que reúne mais de 300 famílias e sofre com a infraestrutura básica precária como: falta d’água, calçamento e saneamento básico.

Paralelo ao curso, Natália atua como monitora comunitária do projeto de extensão “Educação para os Direitos Humanos e Cidadania da População Idosa da Comunidade Calon”, que faz parte do Programa Viva Mais Cidadania. A iniciativa do Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania (MDHC), por meio da Secretaria Nacional dos Direitos da Pessoa Idosa, oferece formação social e política, conectando a comunidade ao Campus.  

“Participar deste projeto para mim tem uma importância muito grande, não apenas por ser cigana, mas por ser estudante do IFPB. Aos poucos ele tem trazido para nossa comunidade, já que o acesso à educação para nós é muito mais difícil; são muitos obstáculos, a começar pelos recursos financeiros. Além disso, ser cigano aqui é um ato de resistência, já que enfrentamos muito preconceito aqui na cidade de Sousa”, declarou Natália.

   

Na Paraíba, o Programa conta com a parceria entre o IFPB e a Funetec e tem o propósito de discutir o processo de envelhecimento das comunidades, promovendo, protegendo e defendendo os direitos humanos e fortalecendo a cidadania de pessoas idosas em situação de vulnerabilidade e daquelas que são vítimas de discriminação múltipla, pertencentes a grupos sociais caracterizados por diversidades histórica, social, étnico-racial, econômica, territorial, cultural e religiosa.

“Ter acesso ao Instituto Federal hoje como eu tenho e participar de um programa como o Viva Mais Cidadania é motivo de muito orgulho não apenas para mim, mas para toda a minha família. Ver Paloma Miranda e outras pessoas do Instituto aqui dentro dos Ranchos desperta na gente o sentimento de pertencimento e de que estamos sendo ouvidos. No futuro muito breve vamos colher ótimos frutos desse programa”, complementou Natália.

De acordo com o diretor-geral do IFPB Campus Sousa, Chico Nogueira, em 2023 o instituto já possuía um sistema de cotas destinado a estudantes do campo, negros e de baixa renda. Após a intermediação do Ministério Público da Paraíba (MPPB), as cotas foram ampliadas para acolher também estudantes ciganos.

“Esse povo que historicamente ficou à margem do acesso à educação de qualidade, e hoje, ter ciganos dentro do instituto como estudantes já é uma realidade. Cada vez mais, nós queremos ver esse avanço dentro do espaço de educação”, comentou Chico. 

O Brasil tem o segundo maior número de ciganos no mundo, atrás apenas dos Estados Unidos, e Sousa têm a maior comunidade cigana da América Latina, com mais de dois mil representantes dos povos, que, há mais de 40 anos, deixaram a vida nômade e se fixaram no Sertão paraibano.

 

TEXTO: Renato Britto

FOTOS: Acervo Pessoal





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